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Vício em redes sociais: por que é tão difícil parar de rolar a tela?

Você pega o celular para responder uma mensagem e, quando percebe, está há vinte minutos no Instagram. Abre o TikTok para ver um vídeo, continua no próximo e depois em mais alguns, mesmo sem estar particularmente interessado no que está assistindo. Em outros momentos, fecha uma rede social e, poucos minutos depois, abre novamente quase sem perceber.
Também é comum pegar o celular nos pequenos intervalos do dia. Enquanto espera o elevador, antes de dormir, no banheiro, durante uma refeição, quando uma série fica menos interessante ou nos poucos minutos entre uma tarefa e outra. Aos poucos, qualquer momento em que não há alguma coisa acontecendo parece ser preenchido pela tela.
É nesse contexto que muitas pessoas começam a se perguntar se estão viciadas em redes sociais. Nem sempre o problema está apenas no número de horas passadas no celular. Algumas pessoas utilizam as redes durante bastante tempo por trabalho, estudo ou contato social sem sentir que perderam o controle sobre esse uso. Em outras situações, a pessoa já percebe que gostaria de diminuir, tenta fazer isso várias vezes e continua voltando para o celular de maneira quase automática.
A rolagem infinita facilita bastante esse funcionamento. Diferentemente de outras atividades, em que existe um momento claro para parar, nas redes sociais sempre há outro vídeo, outra publicação, outra notícia ou alguma coisa nova alguns segundos adiante. Pesquisas recentes têm discutido justamente como características como rolagem infinita, vídeos curtos e conteúdos personalizados podem favorecer um uso cada vez mais repetitivo. Mas compreender por que é tão difícil parar de rolar a tela também exige olhar para o que acontece quando o celular é deixado de lado.
Como saber se o uso das redes sociais está se tornando excessivo?
Passar muito tempo no Instagram, TikTok ou outras redes sociais não é suficiente, sozinho, para dizer que alguém tem um “vício”. Na prática, vale observar principalmente se existe dificuldade para controlar o uso e se ele começou a interferir em outras partes da vida. Estudos sobre uso problemático de redes sociais consideram justamente aspectos como perda de controle, uso repetitivo apesar de consequências negativas e prejuízos no cotidiano.
Algumas situações podem começar a chamar atenção:
- você entra nas redes sociais sem perceber que pegou o celular;
- tenta ficar apenas alguns minutos e permanece muito mais tempo;
- abre o Instagram ou TikTok várias vezes ao longo do dia sem ter algo específico para ver;
- continua rolando mesmo quando o conteúdo já não está interessante;
- adia tarefas porque ficou mais tempo do que pretendia nas redes;
- usa o celular até mais tarde e acaba dormindo menos;
- sente dificuldade para assistir a um filme, estudar ou realizar uma atividade sem conferir o celular;
- percebe que fica inquieto quando está sem acesso às redes sociais;
- já tentou diminuir o tempo de uso várias vezes, mas logo voltou ao mesmo padrão.
É possível se reconhecer em algumas dessas situações sem que isso signifique necessariamente uma dependência. O uso das redes sociais faz parte da rotina de grande parte das pessoas e também pode oferecer entretenimento, informação e contato com outras pessoas. A preocupação aumenta quando existe uma sensação frequente de perda de controle ou quando o uso começa a ocupar um espaço que a própria pessoa gostaria de destinar a outras coisas.
Às vezes, ela percebe isso porque não consegue mais ler como antes. Em outros casos, porque se acostumou a mexer no celular enquanto assiste a alguma coisa. Também pode perceber que está dormindo mais tarde, procrastinando tarefas ou passando uma parte considerável do tempo livre consumindo conteúdos que, depois, mal consegue lembrar.
Por que é tão difícil parar de rolar a tela?
As próprias redes sociais são construídas para manter o usuário interessado. A rolagem não termina, os conteúdos mudam rapidamente e os algoritmos aprendem aquilo que costuma prender a atenção de cada pessoa. Nos vídeos curtos, basta deslizar o dedo para encontrar imediatamente um novo estímulo. Uma revisão e meta-análise publicada em 2025, reunindo 71 estudos e mais de 98 mil participantes, encontrou associação entre maior consumo de vídeos curtos e piores resultados principalmente em atenção e controle inibitório, embora esse tipo de resultado não permita concluir que os vídeos sejam, sozinhos, a causa dessas dificuldades.
É comum explicar todo esse funcionamento dizendo que as redes sociais “liberam dopamina”. O sistema de recompensa participa do comportamento, mas essa explicação, quando apresentada sozinha, deixa de fora uma parte importante da experiência.
Duas pessoas podem utilizar a mesma rede social e estabelecer relações bastante diferentes com ela. Também é possível perceber que o próprio uso muda dependendo do momento da vida. Há dias em que você consegue deixar o celular longe e fazer outras coisas sem pensar muito nele. Em outros, percebe que está abrindo as redes a cada poucos minutos.
Isso acontece porque não estamos diante apenas de uma tecnologia capaz de prender a atenção. Existe também alguém recorrendo a ela, em determinados momentos e por diferentes motivos. Pesquisas sobre uso problemático de redes sociais vêm justamente estudando fatores psicológicos e as motivações envolvidas nesse comportamento, em vez de explicar o fenômeno somente pelas características das plataformas.
Para algumas pessoas, o uso aumenta quando estão ansiosas. Para outras, quando estão sozinhas, entediadas, cansadas ou evitando alguma tarefa. Há quem perceba que passa muito mais tempo rolando a tela à noite, quando o dia termina e já não existem tantas obrigações ocupando a cabeça.
Observar quando você mais procura as redes pode dizer bastante sobre a relação que estabeleceu com elas.
Por que pego o celular mesmo quando não tenho nada para ver?
Às vezes não existe nenhuma mensagem esperando, nenhuma notificação importante e nem mesmo vontade de procurar um conteúdo específico. Ainda assim, você desbloqueia o celular, abre uma rede, olha algumas coisas, fecha e repete o mesmo movimento pouco tempo depois.
Quando um comportamento é repetido muitas vezes ao longo do dia, parte dele passa a acontecer sem uma decisão muito consciente. O celular está por perto, existe um pequeno intervalo e o movimento de pegá-lo já se tornou familiar.
Também vale observar quais são esses intervalos.
Esperar cinco minutos por alguém, ficar sozinho em uma mesa, aguardar uma resposta, deitar antes de sentir sono ou simplesmente não ter nada planejado para aquele momento são experiências que hoje podem ser rapidamente preenchidas. Antes mesmo de perceber o tédio ou pensar no que gostaria de fazer, já existe alguma coisa disponível na tela.
Para algumas pessoas, isso também aparece diante de atividades que exigem mais esforço. Você começa a estudar e abre o Instagram. Precisa escrever alguma coisa e decide olhar rapidamente o celular antes. Está trabalhando em uma tarefa difícil e qualquer pequena pausa vira alguns minutos de vídeos.
Nem sempre isso acontece porque o conteúdo da rede é tão interessante. Muitas vezes, ele é apenas mais fácil de acessar naquele momento do que continuar em contato com algo cansativo, frustrante ou que exige concentração.
O que acontece quando todo momento vazio é preenchido pelo celular?
É possível passar boa parte do dia alternando entre estímulos sem perceber quanto isso se tornou habitual. Acordar e olhar o celular, ouvir alguma coisa durante o banho, assistir a vídeos enquanto come, conferir mensagens durante um filme e terminar o dia novamente nas redes pode deixar poucos momentos em que não existe conteúdo chegando de algum lugar.
O tédio costuma ser uma das primeiras experiências que aparecem quando alguém tenta diminuir o uso. A pessoa tira o Instagram, estabelece um limite de tempo ou deixa o celular em outro cômodo e de repente não sabe muito bem o que fazer naquele intervalo.
Isso pode parecer estranho porque estamos cada vez menos acostumados a esperar. Uma fila pode ser preenchida com vídeos. Um trajeto pode ser acompanhado por mensagens. Alguns minutos antes de dormir podem se transformar facilmente em quarenta minutos de rolagem.
Também existem momentos em que ficar sem estímulo permite que apareçam pensamentos que estavam sendo adiados. Uma preocupação com o trabalho, uma conversa que incomodou, uma sensação de solidão ou simplesmente a percepção de que não se está muito bem podem ficar mais presentes quando não há nada ocupando a atenção.
Isso não significa que toda vez que alguém abre o Instagram esteja fugindo de alguma questão emocional. Seria uma explicação exagerada para um comportamento que também é cotidiano e incentivado pelo próprio funcionamento das plataformas. Mas, quando o uso se torna muito difícil de controlar, pode ser útil perceber o que costuma estar acontecendo pouco antes de pegar o celular.
Redes sociais, ansiedade e comparação
Além do tempo gasto nas redes, importa também aquilo que se consome nelas. Em poucos minutos é possível acompanhar viagens, relacionamentos, mudanças de corpo, promoções profissionais, compras, rotinas de treino e diferentes versões cuidadosamente selecionadas da vida de muitas pessoas.
Mesmo sabendo racionalmente que ninguém publica tudo o que vive, a comparação pode acontecer.
Você está em um dia comum e vê alguém viajando. Está passando por uma dificuldade no relacionamento e encontra uma sequência de casais aparentemente felizes. Está insatisfeito profissionalmente e começa a acompanhar pessoas da mesma idade anunciando conquistas. Dependendo do momento que está vivendo, alguns conteúdos permanecem na cabeça depois que o aplicativo já foi fechado.
Há ainda uma forma diferente de ansiedade relacionada à necessidade de acompanhar o que está acontecendo. Novas publicações surgem o tempo todo, grupos continuam conversando, tendências mudam rapidamente e sempre existe a possibilidade de ter perdido alguma coisa enquanto estava offline. O medo de ficar de fora, frequentemente chamado de FOMO, aparece nas pesquisas como um dos fatores relacionados ao uso problemático das redes sociais.
Em outros casos, a pessoa entra na rede justamente porque já está ansiosa. Procura uma distração, consegue alguns minutos de alívio e permanece ali por muito mais tempo do que pretendia. Quando sai, a tarefa continua esperando, já está mais tarde ou aparece a sensação de ter desperdiçado tempo. No dia seguinte, o mesmo movimento pode acontecer novamente.
Doomscrolling: quando você continua rolando mesmo se sentindo pior
O termo doomscrolling passou a ser utilizado para descrever o consumo repetitivo de notícias e conteúdos negativos, principalmente quando a pessoa continua procurando mais informações mesmo percebendo que aquilo está aumentando sua angústia.
É o que pode acontecer durante uma crise política, uma guerra, uma tragédia ou qualquer acontecimento que produza muita incerteza. Você abre uma notícia, procura outra atualização, passa para os comentários, vê mais um vídeo e sente que precisa continuar acompanhando para saber se apareceu alguma informação nova.
O doomscrolling vem sendo estudado junto ao uso problemático das redes sociais e ao sofrimento psicológico, embora seja importante não transformar qualquer hábito de acompanhar notícias em um problema clínico.
Também existem versões mais cotidianas desse comportamento. Alguém que está inseguro com o próprio corpo pode passar muito tempo consumindo conteúdos sobre emagrecimento. Quem está vivendo uma crise no relacionamento pode assistir repetidamente a vídeos sobre traição, abandono ou sinais de desinteresse. O algoritmo passa a oferecer cada vez mais conteúdos parecidos e a pessoa continua assistindo justamente ao assunto que já estava ocupando seus pensamentos.
Como diminuir o uso das redes sociais?
Quando alguém percebe que está passando tempo demais nas redes, uma reação comum é tentar resolver tudo de uma vez. Apaga os aplicativos, estabelece limites rígidos ou decide que não vai mais utilizar o celular em determinados horários. Para algumas pessoas isso funciona durante um período; para outras, poucos dias depois tudo volta ao que era antes.
Medidas práticas podem ajudar. Desativar notificações desnecessárias, evitar deixar o celular ao lado da cama, estabelecer alguns períodos sem redes e dificultar o acesso automático aos aplicativos diminuem parte dos estímulos que fazem com que você os abra sem perceber. Estudos sobre estratégias de redução do uso digital mostram resultados variados, e ainda não existe uma única forma de “detox digital” que funcione igualmente para todos.
Também pode ser interessante observar o próprio uso antes de tentar apenas reduzi-lo. Em quais horários você mais fica nas redes? O que costuma estar fazendo antes? Existem aplicativos que você abre de forma muito mais automática? O tempo aumenta quando está ansioso, cansado ou sozinho? Você utiliza as redes porque quer ver alguma coisa ou percebe que muitas vezes entra sem saber exatamente o que procura?
Essas perguntas ajudam a sair de uma contagem puramente numérica de horas. Uma pessoa pode diminuir o tempo de tela e continuar recorrendo ao celular da mesma maneira sempre que alguma sensação desconfortável aparece.
O que a psicanálise pode compreender sobre o uso excessivo das redes sociais?
Na psicoterapia de orientação psicanalítica, não existe uma explicação única para o motivo de alguém passar tantas horas nas redes. É preciso compreender como aquele uso aparece na vida daquela pessoa e o lugar que passou a ocupar em sua rotina.
Alguém pode recorrer ao celular principalmente quando está sozinho. Outra pessoa percebe que entra nas redes quando precisa começar alguma coisa que vem adiando. Há quem passe horas acompanhando a vida dos outros e termine se sentindo insuficiente. Também existem pessoas que buscam continuamente mensagens, curtidas e visualizações e ficam bastante mobilizadas quando a resposta esperada não acontece.
O próprio conteúdo que prende a atenção pode dizer alguma coisa. Nem todos passam horas olhando as mesmas coisas. Relacionamentos, aparência, emagrecimento, carreira, dinheiro, maternidade, sexualidade, produtividade e vida de outras pessoas podem ocupar lugares muito diferentes para cada um.
Durante a terapia, essas repetições podem ser percebidas com mais cuidado. Não para encontrar uma explicação escondida para cada vez que alguém pega o celular, mas para compreender por que determinados usos se tornaram tão frequentes e o que acontece quando a pessoa tenta ficar sem eles.
Em alguns casos, reduzir o tempo de tela sem olhar para essas questões faz com que o celular seja substituído rapidamente por outra forma de distração. Quando existe sofrimento associado ao uso, compreender o que aquela repetição vem acompanhando na vida da pessoa pode fazer parte do processo terapêutico.
Perguntas frequentes sobre vício em redes sociais
Como saber se sou viciado em redes sociais?
Não existe um número específico de horas que determine sozinho um vício em redes sociais. É importante observar dificuldade de controlar o uso, tentativas frustradas de diminuir, prejuízos no sono, estudos, trabalho ou relacionamentos e a continuidade do comportamento mesmo quando ele já está trazendo consequências negativas. Na literatura científica, o termo uso problemático de redes sociais costuma ser utilizado para estudar esse tipo de funcionamento.
Por que não consigo parar de rolar a tela?
A rolagem infinita, os conteúdos curtos e a personalização dos feeds favorecem a permanência nas plataformas. Além disso, o uso pode se tornar habitual e estar associado a momentos de tédio, ansiedade, solidão, procrastinação ou busca por distração. Por isso, muitas vezes é necessário observar tanto o funcionamento das plataformas quanto a maneira particular como cada pessoa passou a utilizá-las.
O que é doomscrolling?
Doomscrolling é o hábito de continuar consumindo notícias e conteúdos negativos por períodos prolongados, mesmo quando isso aumenta a ansiedade ou o mal-estar. Pode acontecer principalmente em momentos de incerteza ou diante de acontecimentos que geram preocupação e necessidade constante de atualização.
Vício em redes sociais pode causar ansiedade?
Pesquisas encontram associação entre uso problemático de redes sociais e diferentes indicadores de sofrimento psicológico, incluindo ansiedade, mas essa relação é complexa e não permite concluir simplesmente que as redes sejam a causa da ansiedade em todas as pessoas. Em alguns casos, quem já está ansioso também pode recorrer mais frequentemente às redes sociais.
Como parar de mexer tanto no celular?
Reduzir notificações, criar períodos sem celular e estabelecer limites para alguns aplicativos pode ajudar, principalmente quando o acesso já se tornou muito automático. Se mesmo com essas mudanças existe grande dificuldade para diminuir o uso ou se as redes estão interferindo no sono, trabalho, estudos ou relacionamentos, também pode ser importante compreender o que mantém esse comportamento.
Quando o uso das redes sociais pode ser trabalhado na terapia?
Nem toda pessoa que passa bastante tempo nas redes sociais precisa de terapia por esse motivo. A questão pode ser levada para a psicoterapia quando existe dificuldade de controlar o uso, quando várias tentativas de diminuir não funcionam ou quando o celular começa a interferir em outras áreas da vida.
Também pode acontecer de o uso excessivo aparecer junto de outras questões: ansiedade, comparação constante, dificuldade de concentração, procrastinação, solidão, insegurança nos relacionamentos ou necessidade frequente de acompanhar aquilo que os outros estão fazendo.
Na psicoterapia de orientação psicanalítica, é possível compreender como esse uso foi se organizando na rotina e por que determinados momentos, sentimentos ou situações fazem com que a pessoa recorra repetidamente às redes.
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