Isabella Silveira PsicoClinic • 29 de agosto de 2026

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Você pode estar viciado em redes sociais sem perceber: entenda como elas prendem sua atenção

Você pega o celular para responder uma mensagem e aproveita para abrir o Instagram. Vê alguns stories, aparece um Reels interessante, depois outro que nem é tão bom, mas você continua. Quando finalmente fecha o aplicativo, talvez tenha passado muito mais tempo do que pretendia. Mais tarde, enquanto espera alguma coisa ou encontra alguns minutos livres, abre novamente sem ter recebido nenhuma mensagem e sem estar procurando nada específico.


Esse comportamento se tornou tão comum que é difícil perceber quando deixou de ser apenas um hábito cotidiano. Quase todo mundo usa redes sociais, quase todo mundo olha o celular várias vezes ao dia e muitas das pessoas ao nosso redor também passam algum tempo rolando vídeos antes de dormir. É justamente essa normalidade que pode esconder uma relação cada vez mais automática com a tela.


Por trás de uma experiência aparentemente simples — movimentar o dedo e assistir ao próximo vídeo — existe uma combinação bastante sofisticada de tecnologia, psicologia do comportamento e modelo de negócio. As plataformas aprendem continuamente com aquilo que fazemos, retiram boa parte dos momentos naturais de interrupção e oferecem uma quantidade praticamente ilimitada de conteúdos escolhidos para aumentar a chance de encontrarmos algo que desperte interesse.


Ao mesmo tempo, nosso cérebro também aprende. Aprende que o celular pode preencher rapidamente o tédio, ocupar uma espera, interromper uma tarefa difícil, aliviar momentaneamente uma ansiedade ou oferecer alguma novidade quando o que está acontecendo fora da tela parece pouco estimulante.



Por isso, entender por que as redes sociais conseguem prender tanto a atenção envolve muito mais do que dizer que “elas liberam dopamina”.

Primeiro: por que uma rede social que custa bilhões para funcionar é gratuita?

Instagram, TikTok e outras grandes redes precisam de infraestrutura, servidores, equipes de tecnologia e sistemas extremamente complexos para funcionar. Mesmo assim, você não paga uma mensalidade para abrir o aplicativo.


Uma parte importante desse modelo de negócio depende da publicidade. Empresas pagam para alcançar pessoas dentro dessas plataformas e, para que esse espaço continue comercialmente valioso, é importante que existam usuários entrando, permanecendo, assistindo, interagindo e retornando.


Isso não significa que exista alguém observando individualmente você rolar o Instagram e pensando em como mantê-lo preso durante mais dez minutos. O processo acontece por meio de sistemas capazes de analisar grandes quantidades de comportamento e prever quais conteúdos têm maior probabilidade de interessar a diferentes usuários.


Quanto mais você utiliza uma plataforma, mais sinais produz sobre aquilo que costuma chamar sua atenção. E uma experiência que acerta cada vez mais seus interesses tende a ser uma experiência que você terá mais vontade de continuar utilizando.


O próprio TikTok explica que o feed “Para Você” se torna mais relacionado aos interesses da pessoa conforme ela utiliza o aplicativo. Entre as razões oferecidas pela plataforma para explicar uma recomendação estão ter assistido, curtido, compartilhado ou comentado conteúdos semelhantes. É aqui que começa uma parte muito interessante: você ensina o algoritmo o tempo inteiro, inclusive quando acha que não está fazendo nada.

Você não precisa curtir nada para o algoritmo aprender com você

Imagine que aparecem quatro vídeos no seu TikTok. Você passa pelo primeiro quase imediatamente, assiste a metade do segundo, vê o terceiro até o final e entra no perfil de quem publicou o quarto. Mesmo sem curtir nenhum deles, seu comportamento diante de cada conteúdo foi diferente, e esse tipo de diferença já produz informações que podem ser usadas pelo sistema de recomendação.


Curtidas, comentários, compartilhamentos e novos seguidores são sinais claros de interesse, mas não são os únicos. O tempo que você permanece em um vídeo, os conteúdos que pula rapidamente, aqueles que assiste até o fim e os perfis que visita também ajudam a construir um padrão de comportamento. O próprio TikTok informa que suas recomendações são influenciadas por diferentes formas de interação, inclusive por aquilo que a pessoa assiste ou ignora.


É por isso que o feed pode começar a mudar mesmo quando você não percebe nenhuma mudança consciente na forma como utiliza a rede. Alguém que terminou um relacionamento, por exemplo, pode passar a prestar mais atenção em vídeos sobre ex, traição, rejeição ou sinais de desinteresse. Talvez leia mais comentários, assista até o final a alguns conteúdos ou visite perfis relacionados ao tema. Depois de algum tempo, a plataforma passa a ter mais sinais de que aquele assunto costuma prender sua atenção e pode começar a recomendar mais conteúdos semelhantes.


A rede social não precisa compreender que essa pessoa está sofrendo por um término ou tentando lidar com medo de rejeição. Para o sistema, basta identificar que determinados conteúdos costumam gerar mais tempo de visualização ou mais interação. Quanto mais essas recomendações aparecem e mais a pessoa continua reagindo a elas, mais o próprio feed pode se concentrar naquele assunto.



É assim que surge aquela sensação de que o aplicativo “sabe exatamente o que está acontecendo comigo”. Na prática, ele não precisa conhecer sua história nem entender o sentido emocional daquilo que você está vivendo. Ele precisa reunir sinais suficientes para prever quais conteúdos têm maior chance de manter sua atenção.

Por que às vezes parece que só aparece um assunto no seu feed?

Quando um tema começa a receber mais atenção, existe uma chance maior de conteúdos semelhantes continuarem aparecendo. Isso pode acontecer de maneira bastante rápida, principalmente quando o assunto está ligado a alguma preocupação atual e, por isso, já desperta naturalmente mais interesse.

Uma pessoa preocupada com o corpo pode começar a assistir com mais frequência a vídeos de emagrecimento, dieta, treino e transformações físicas.

Outra, insegura no relacionamento, pode prestar mais atenção em conteúdos sobre traição, rejeição ou sinais de desinteresse. Em pouco tempo, o feed pode parecer dominado por esses assuntos.


O problema é que aquilo que prende nossa atenção nem sempre é agradável. Também ficamos diante de conteúdos que despertam medo, raiva, insegurança, curiosidade ou comparação. Alguém pode passar bastante tempo assistindo a vídeos sobre emagrecimento e terminar a sessão se sentindo pior com o próprio corpo, ou consumir uma sequência de conteúdos sobre traição e ficar ainda mais ansioso em relação ao parceiro.


Para o algoritmo, porém, o comportamento continua oferecendo sinais de interesse. Se a pessoa permanece, assiste, entra nos comentários, pesquisa ou procura conteúdos relacionados, aquele tema continua aparecendo como algo capaz de manter sua atenção, independentemente de a experiência emocional estar sendo positiva ou negativa.



Esse ciclo pode ser difícil de perceber porque parte dele acontece de maneira automática. A pessoa já está preocupada com determinado assunto, presta mais atenção em conteúdos relacionados, passa a receber mais recomendações semelhantes e, ao abrir a rede novamente, encontra uma quantidade ainda maior daquele tema. Com o tempo, o feed pode reforçar justamente aquilo que já vinha ocupando seus pensamentos.

Por que você continua rolando mesmo quando vários vídeos não são interessantes?

Nem todo vídeo precisa ser bom para que você continue usando a plataforma. Na verdade, uma parte importante dessa experiência está justamente no fato de que você não sabe quando aparecerá algo realmente interessante.


Você pode passar rapidamente por três vídeos que não chamaram atenção e, logo depois, encontrar um que é engraçado, curioso ou exatamente relacionado a algo que estava pensando. Como descobrir o próximo conteúdo exige apenas um movimento do dedo, continuar procurando se torna muito fácil.


Esse tipo de imprevisibilidade participa da maneira como hábitos são mantidos. Quando uma experiência interessante pode aparecer a qualquer momento, existe uma expectativa que faz com que a pessoa continue tentando. Nas redes sociais, isso acontece em uma velocidade muito alta, porque cada nova tentativa leva poucos segundos.



Por isso, alguém pode perceber que já não está particularmente interessado nos conteúdos que está vendo e ainda assim continuar rolando. Não é necessário que cada vídeo seja recompensador. Basta que, de tempos em tempos, apareça alguma coisa que faça valer a pena continuar mais um pouco.

A rolagem infinita também dificulta perceber a hora de parar

Muitas atividades possuem algum ponto natural de encerramento. Um capítulo termina, um episódio chega ao fim, um filme sobe os créditos e um jornal tem uma última página. Esses momentos ajudam a interromper a atividade porque criam uma pequena pausa em que é preciso decidir se queremos continuar.


Nas redes sociais, esse tipo de limite praticamente desaparece. O feed não termina e sempre existe alguma coisa disponível logo abaixo. Quando um vídeo acaba, outro começa; quando uma publicação deixa de interessar, basta rolar para encontrar a próxima.


Isso faz com que a decisão de parar dependa muito mais do próprio usuário. Em vez de encontrar um encerramento natural, a pessoa precisa interromper a experiência enquanto novos conteúdos continuam surgindo. Muitas vezes, ela entra com a intenção de ficar apenas alguns minutos e só percebe que permaneceu muito mais tempo quando olha o relógio ou precisa voltar para outra atividade.



Esse mecanismo ajuda a entender por que é tão comum sentir que o tempo passou “sem perceber”. Não houve uma decisão clara de ficar quarenta minutos na rede. Houve uma sequência de pequenas decisões de continuar só mais um pouco.

E a dopamina, afinal, o que tem a ver com isso?

A dopamina costuma aparecer como explicação principal para o vício em redes sociais, mas reduzir todo o funcionamento a “picos de dopamina” deixa muita coisa de fora. Ela participa de processos relacionados a motivação, aprendizagem e expectativa de recompensa, e por isso está envolvida quando o cérebro aprende que determinados comportamentos costumam trazer algum tipo de estímulo ou novidade.


Se toda vez que você está entediado abre o Instagram e encontra alguma coisa interessante, essa sequência começa a se repetir. O mesmo pode acontecer quando você está esperando alguém, ansioso, procrastinando uma tarefa ou simplesmente sem saber o que fazer durante alguns minutos. Aos poucos, pegar o celular vai se tornando uma resposta cada vez mais automática para esses momentos.


As notificações também participam desse processo. No começo, um som ou um símbolo na tela é apenas um aviso. Depois de muitas repetições, ele passa a estar associado à possibilidade de encontrar uma mensagem, uma curtida, uma resposta ou alguma coisa nova. Com o tempo, o próprio sinal já pode despertar a vontade de conferir o aparelho.



Em alguns casos, a checagem acontece até sem notificação. Você termina uma tarefa e pega o celular, fica alguns segundos esperando alguém e abre uma rede, ou desbloqueia a tela durante uma conversa sem ter recebido nada. Esse comportamento foi sendo aprendido e repetido tantas vezes que já não exige uma decisão consciente em cada ocasião.

Como alguém pode estar usando as redes de forma problemática e ainda achar que está tudo normal?

Esse é um dos pontos que mais confundem porque o uso excessivo das redes nem sempre provoca uma ruptura evidente na vida. A pessoa continua trabalhando, estudando, encontrando amigos e cumprindo compromissos, o que faz parecer exagerado pensar que existe alguma perda de controle.


Muitas vezes, o problema aparece em pequenas alterações da rotina. A pessoa demora mais para dormir porque ficou vendo vídeos, consulta o celular várias vezes durante o trabalho, pega o aparelho durante um filme ou percebe que uma tarefa mais difícil é constantemente interrompida por visitas rápidas ao Instagram ou ao TikTok.


Como quase todo mundo ao redor também usa o celular com frequência, esse tipo de comportamento pode parecer completamente normal. Por isso, olhar apenas para a quantidade de horas nem sempre é suficiente. Uma pessoa pode passar bastante tempo nas redes por trabalho e conseguir desligá-las sem dificuldade, enquanto outra utiliza menos horas, mas tenta reduzir repetidamente, sente necessidade de checar o aparelho o tempo todo e percebe prejuízos no sono ou na concentração.



Quando se fala em uso problemático, interessa observar principalmente o grau de controle que a pessoa ainda tem sobre esse comportamento. Se existe uma diferença constante entre quanto ela pretende usar e quanto realmente consegue usar, se várias tentativas de diminuir não funcionam e se o celular começa a interferir em outras atividades, já existe algo importante para ser observado.

Por que vídeos curtos parecem deixar tudo fora da tela mais lento?

TikTok, Reels e Shorts oferecem uma sequência muito rápida de estímulos. Em poucos minutos, você pode assistir a conteúdos sobre humor, política, relacionamento, maquiagem, emagrecimento, uma notícia e uma receita, sem precisar se comprometer com nenhum deles por muito tempo.


Quando alguma coisa perde o interesse, basta passar para a próxima. Isso cria uma experiência muito diferente de atividades que exigem permanecer mesmo quando nem tudo é imediatamente estimulante. Ler um livro, estudar, acompanhar uma aula ou conversar com alguém envolve atravessar momentos mais lentos, repetitivos ou menos interessantes.


Pesquisas recentes encontraram associação entre maior consumo de vídeos curtos e dificuldades relacionadas à atenção e ao controle inibitório. Esses resultados não permitem dizer que as redes sociais sejam, sozinhas, a causa de todos os problemas de concentração, mas ajudam a entender por que o uso frequente de estímulos tão rápidos vem sendo estudado com mais atenção.



No cotidiano, algumas pessoas percebem que ficou mais difícil manter o foco em atividades longas depois de se acostumarem a alternar rapidamente entre conteúdos. Um texto parece demorado, um filme perde a graça com facilidade e uma tarefa difícil desperta vontade de conferir o celular. É nesse tipo de situação que vale observar como o uso das redes está se relacionando com a própria capacidade de permanecer concentrado.

As redes também ocupam os momentos em que antes não acontecia nada

Esperar o elevador, ficar alguns minutos antes de uma consulta, almoçar sozinho ou deitar na cama antes de sentir sono são situações que hoje podem ser preenchidas imediatamente pelo celular. Como estamos acostumados a fazer isso, muitas vezes nem percebemos que esses pequenos intervalos praticamente desapareceram.


Quando alguém tenta diminuir o uso das redes, o tédio costuma aparecer rapidamente. Algumas pessoas percebem que ficam desconfortáveis depois de poucos minutos sem nenhum estímulo, enquanto outras começam a notar pensamentos ou preocupações que normalmente eram interrompidos pelo celular.


Não significa que toda pessoa esteja utilizando redes sociais para fugir de alguma questão emocional. O celular também é simplesmente fácil, disponível e muito estimulante. Ainda assim, vale observar se determinadas situações fazem com que a vontade de pegar o aparelho aumente, principalmente quando isso acontece sempre nos mesmos momentos.



Para algumas pessoas, o uso cresce quando estão ansiosas. Para outras, quando se sentem sozinhas ou quando precisam começar alguma tarefa difícil. Há também quem utilize as redes principalmente quando está insatisfeito com o próprio corpo, preocupado com o relacionamento ou se comparando com outras pessoas.

O problema está no algoritmo ou na pessoa que usa?

As duas coisas participam dessa relação. As plataformas utilizam personalização, recomendações contínuas, vídeos curtos, notificações e feeds sem um ponto natural de encerramento, todos recursos que facilitam a permanência e a repetição do uso. Ao mesmo tempo, pessoas diferentes podem reagir de maneiras muito distintas ao mesmo aplicativo.


Uma pessoa passa horas acompanhando conteúdos de carreira e sente que está sempre atrasada profissionalmente. Outra fica presa em vídeos de emagrecimento e começa a se comparar com os corpos que vê. Alguém inseguro no relacionamento pode consumir continuamente conteúdos sobre traição ou abandono, enquanto outra pessoa quase nunca recebe esse tipo de recomendação.



Por isso, compreender o funcionamento da plataforma explica uma parte importante do problema, mas não explica por que determinados conteúdos conseguem prender tanto uma pessoa específica. É nesse ponto que a psicologia e a psicanálise ajudam a ampliar a leitura, observando quais temas se repetem, em quais momentos o uso aumenta e o que a pessoa costuma procurar quando abre a rede.

Como saber se o uso das redes está ocupando espaço demais na sua vida?

Não é necessário abandonar as redes sociais nem transformar qualquer uso frequente em um problema. Elas fazem parte da vida contemporânea e podem ser utilizadas para trabalho, entretenimento, informação e contato com outras pessoas.


Vale observar com mais atenção quando existe dificuldade persistente para controlar o tempo de uso, quando várias tentativas de diminuir não funcionam ou quando o celular começa a interferir no sono, trabalho, estudos, relacionamentos ou concentração.


Também pode ser útil perceber o quanto desse uso acontece de forma automática. Se você abre a rede muitas vezes sem ter algo específico para ver, continua rolando mesmo quando já perdeu o interesse ou sente dificuldade de ficar alguns minutos sem conferir o aparelho, talvez exista um hábito mais consolidado do que parecia.


Na psicoterapia, essas questões podem ser trabalhadas considerando tanto os mecanismos tecnológicos envolvidos quanto a maneira particular como aquela pessoa se relaciona com eles. A PsicoClinic realiza atendimento psicológico individual para adultos, presencialmente em São Paulo e também online para o mundo todo, com acompanhamento voltado à história e às particularidades de cada paciente.


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